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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Prostituição na Alemanha é legal

09 maio 2014

por
Veronica Munk
Área legalizada de prostituição em Berlim, Alemanha Área legalizada de prostituição em Berlim, Alemanha. Photo: Filipe Fortes. Creative Commons LizenzvertragEsta imagem está sobre licença de Creative Commons License.
Foi durante o governo de coalisão de verdes e socialistas, que em 2002 a Alemanha aprovou a LProst (Lei de Prostituição), uma legislação que legalizou o trabalho sexual. Antes de 2002, esse trabalho não era ilegal nem proibido: as pessoas que o exerciam tinham que pagar impostos, mas ao mesmo tempo, a atividade era considerada imoral e sem valor jurídico numa disputa entre clientes e profissionais do sexo.
Durante a Copa do Mundo de 2006 na Alemanha uma manchete recorrente na imprensa foi que 40 mil prostitutas invadiriam as cidades alemãs vindas do Leste Europeu. A manchete alarmista, que mostrou-se falaciosa, fez ressurgir discursos discriminatórios e preconceituosos contra trabalhadoras do sexo, e impôs o debate sobre prostitutição e migração. Veronica Munk, ativista e pesquisadora do tema, afirma que "para o Movimento de Prostitutas e Simpatizantes, a LProst de 2002 foi o primeiro passo para o reconhecimento dos direitos civis e trabalhistas de trabalhadores do sexo na Alemanha".
No Brasil, com a realização da Copa ressurgiu o debate sobre a regulamentação do trabalho dos profissionais do sexo. O exemplo alemão nos dá algumas pistas para entendermos os avanços e desafios em relação ao tema.
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Apesar do seu reconhecimento como profissão desde 2002, trabalhadores do sexo na Alemanha ainda estão sujeitos à discriminação, moralismos, incertezas e mal entendidos. Mesmo assim, o reconhecimento formal significou um avanço em termos de direitos humanos. Um avanço que só existe em quatro outros paises da União Européia. Em 20 deles não há legislação própria, e na Lituania e Romenia a prostituição é proibida.     
A Alemanha tem 82 milhões de habitantes. Estima-se que entre 100 mil e 300 mil mulheres, homens e transsexuais exerçam o trabalho sexual. Pelo fato de não existirem estudos científicos, esta estimativa se refere a pessoas que exercem este trabalho de forma integral ou parcial, num período de um ano.
Estima-se também, que cerca de 70% são estrangeiros, sendo que a maioria neste grupo é de cidadãos da própria UE, sobretudo búlgaros, romenos, poloneses, húngaros, tchecos e lituanos. A expansão da UE em 2004 e 2007, que abriu as fronteiras e o mercado de trabalho, estimulou o movimento migratório e trouxe mudanças visíveis, também na prostituição.
A Lei de Prostituição de 2002
A prostituição na Alemanha foi legalmente regulamentada a partir de janeiro de 2002.  O trabalho sexual, antes de 2002, não era ilegal nem proibido: as pessoas que o exerciam tinham que pagar impostos, mas ao mesmo tempo, a atividade destas pessoas era considerada imoral e portanto, sua palavra não tinha valor jurídico.
O objetivo da Lei de Prostituição (LProst) de 2002 foi o de abolir a imoralidade da atividade, criar regras jurídicas para o seu exercício e assim melhorar as condições de trabalho daqueles que o exerciam. A LProst é composta de três pontos somente:
1. Trabalhadores do sexo têm o amparo da lei para cobrar o pagamento por serviços prestados e não quitados;
2. Podem escolher entre trabalhar como empregados ou autônomos. Em ambos os casos com obrigações e direitos a benefícios sociais como de qualquer outra atividade laboral;
3. Foi abolida a lei que considerava como ‘promoção da prostituição’ o fato de bordéis oferecerem boas condições de trabalho ou ter, por exemplo, preservativos à disposição dos clientes.
Para o Movimento de Prostitutas e Simpatizantes, a LProst de 2002 foi o primeiro passo para o reconhecimento dos direitos de trabalhadores do sexo na Alemanha. Um passo extremamente importante e significativo, mas somente o primeiro de vários outros passos, que se incumbiriam de garantir a descriminalização total do trabalho sexual. Estes outros passos, entretanto, até hoje não foram dados.   
Os avanços
A regulamentação da prostituição foi o passo que permitiu que o trabalho sexual saísse do limbo. A Lei é um instrumento concreto na defesa dos direitos das pessoas que exercem ou queiram exercer esta atividade e, ao mesmo tempo, é uma base legal contra a discriminacação.
Outro fator positivo da LProst é o fato dela ser uma regulamentação ‘voluntária’, isto é, ela não obriga uma pessoa a declarar oficialmente que é prostituta ou michê. Isto é vantajoso para aqueles que receiam a estigmatização ainda existente.  
E o fato da prostituição ter sido legalizada, fez com que cidadãos da União Européia possam trabalhar como empregados ou autônomos sem maiores obstáculos burocráticos.
As pendências
De acordo com a avaliação oficial sobre o impacto da LProst, feita em 2005 peloInstituto de Estudos de Ciências Sociais da Mulher (Freiburg), a Lei teve, entretanto, um impacto limitado, por duas razões:
n as legislações periféricas, como as que regem tributação, autonomia ou vínculo empregatício, imigração, uso de bares e restaurantes, contravenção e outros crimes, não foram modificadas ou adaptadas de acordo com a LProst;
n A LProst, apesar de federal, não é aplicada de forma igual em todo o país. Na Alemanha, um país federativo, onde cada um dos 16 Estados pode aplicar ou interpretar leis de formas diferentes, faz com que autoridades tenham diferentes visões de um mesmo assunto e consequentemente, diferentes formas de lidar com ele.
Esta situação dificulta, traz incertezas e insegurancas tanto para aqueles que exercem a prostituição, como para as autoridades responsáveis pela aplicação da lei. Apesar da LProst, da legalidade e do reconhecimento, as contradições existem:   
Criminalização: o trabalho sexual ainda é criminalizado, principalmente o de rua,  que é proibido em determinadas áreas de algumas cidades como Dortmund, Hamburgo e Munique, e ultimamente tem vindo acompanhado da penalização de clientes. Cada vez mais cidades adotam estas medidas. 
Estigmatização: pessoas que exercem o trabalho sexual ainda são discriminadas. Geralmente, prostitutas não são convidadas, como seria de se esperar,  a participar de discussões ou decisões que dizem respeito a elas.
Impostos: a cobrança de impostos varia de acordo com o Estado ou até a cidade. Existem cidades onde existe um pagamento antecipado diário, que pode ir de 15 a 30 euros por dia (de 45 a 90 R$), recolhido pelo dono ou administrador do bordel. Há, entretanto, outras cidades onde isso não existe.         
Lei de Imigracão: uma pessoa de fora da União Européia não pode requisitar um visto de trabalho e residência com o intuito de trabalhar na prostituição. Isso pode propiciar dependência e exploração de migrantes por terceiros.
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Falam as putas...
Associação Profissional de Serviços Eróticos e Sexuais (Berufsverband erotische und sexuelle Dienstleistungen, www.sexwork-deutschland.de), criada em Frankfurt, em outubro de 2013, é da seguinte opinião:
Punição de clientes
Rejeitamos todo e qualquer tipo de punição de clientes de prostitutas, por isso levar a atividade à clandestinidade, o que comprovadamente aumenta  a  violência contra prostitutas, a dependencia de terceiros e a insegurança.
Autonomia
Queremos  que trabalhadores do sexo sejam tratados como qualquer outro trabalhador autônomo, tanto em relação a impostos como a direitos trabalhistas. Prostituição é uma atividade legal e não necessita de impostos especiais.
Registro compulsório
Rejeitamos o registro compulsório por isto forçar uma identificação nem sempre desejada.
Regras para estabelecimentos
Rejeitamos a regulamentação de estabelecimentos como forma de controle sobre profissionais do sexo. Queremos profissionalismo e condições de trabalho adequadas.
Abolição das áreas proibidas
Queremos soluções pragmáticas, onde os interesses dos trabalhadores do sexo, dos moradores e dos comerciantes sejam igualmente respeitados e considerados. Cada trabalhor do sexo tem o direito de escolher a sua forma de trabalhar: se na rua ou dentro de casas.
Consultoria
Queremos a inclusão de trabalhadores do sexo como consultores em discussões, decisões políticas, trabalhistas e legislativas sobre  prostituição.
Exames médicos
Rejeitamos a re-introdução do exame médico compulsório para prostitutas, abolido em 2001. Queremos a extensão da rede dos serviços médicos ​​gratuitos e anônimos do Ministério da Saúde.
Trabalho sexual e tráfico
Rejeitamos a mescla destes dois temas, quando sob a argumentação de que todos aqueles que trabalham na prostituição são vítimas de tráfico, exploração e violencia, e que só se pode combater o tráfico ao se abolir a prostituição. Esta argumentação é falsa, irreal e manipulativa. Prostituição é trabalho, enquanto tráfico, exploração e violencia são crimes.
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A oposição
É claro que também existem na Alemanha vozes contra o reconhecimento da prostituição como trabalho. Vozes estas que afirmam não existirem mulheres que escolham trabalhar na prostituição por livre e espontânea vontade; que todas que o fazem são coagidas e/ou vítimas de tráfico humano e outras violências, que o trabalho sexual é uma afronta à diginidade da mulher e portanto não deve existir.
Este grupo usa números que, comprovadamente, não têm nenhuma base científica, e baseiam suas discussões em argumentos puramente moralistas. A solução proposta para acabar com a prostituição é a criminalização dos clientes como forma de coibir a demanda por serviços sexuais.   
Eles intensificaram suas demandas no final de 2013, quando do lançamento de um livro que defende a abolição da prostituição. Isto trouxe uma onda de discussões e mostrou que ainda existem muitos clichês na sociedade, mesmo depois da legalização.
A resposta das prostitutas
Apesar de existirem algumas organisações locais, não havia na Alemanha uma organisação nacional de prostitutas. A criação de uma estava no entanto latente há algum tempo, e em meados de 2013 um grupo de 40 trabalhadores do sexo fundou a Associação Profissional de Serviços Eróticos e Sexuais
Ela veio num momento muito propício, quando as vozes por mais repressão contra a prostituição começaram a ficar mais fortes. Este grupo tem sido extremamente ativo na mídia e em palestras pelo país afora, ao explicar a realidade de sua perspectiva e assim combater a vertente moralista.
Não que não exista coerção, tráfico e violência, mas a maioria dos trabalhadores do sexo o faz por decisão própria. Só através do reconhecimento de seu trabalho, estas pessoas poderão se defender contra a violência e exigir seus direitos humanos.
A repercussão da lei alemã no Brasil
A Rede Brasileira de Prostitutas (www.redeprostitutas.org.br) tem cerca de 30 organisações filiadas. Há mais de 30 anos elas lutam pelo reconhecimento de seus direitos, mas até agora sem maiores resultados.
Atualmente tramita na Câmara dos Deputados do Brasil um projeto do deputado Jean Wyllys, do PSol, o projeto Gabriela Leite, que regulamenta a atividade dos profissionais do sexo.     
Essa não é a primeira tentativa de regularizar a situação das prostitutas brasileiras. Em 2003, o então deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), baseando-se na lei alemã de 2002, tentou tirar a proposta do papel, mas o projeto foi arquivado pela Mesa Diretora da Câmara. No ano seguinte, o hoje ex-deputado petista Eduardo Valverde (RO) também apresentou proposta semelhante, mas a ideia teve o mesmo destino.
Em novembro do ano passado, a Comissão de Direitos Humanos recebeu o Projeto n° 4.211/2012, do deputado Jean Wyllys.  Ele pretende enfrentar a forte resistência contra a proposta, mas reconhece que a trincheira conservadora, especialmente dos parlamentares religiosos, é um empecilho expressivo. (http://jeanwyllys.com.br/wp/lei-da-prostituicao-divide-camara)
A Copa de 2006 na Alemanha
A Copa de Futebol no Brasil está perto e prostituição é sempre tema quando se trata de grandes eventos públicos.
Na Alemanha, um ano antes do início da Copa do Mundo, começaram a circular informações sobre a vinda de 40 mil mulheres, todas forçadas a trabalhar na prostituição durante o evento. A mídia explorou a idéia de ‘Futebol = Homens = Sexo’ somado à fórmula ‘Prostituição = Coerção = Tráfico’. Armou-se um circo histérico, propício para ações que justificassem repressão e discriminação contra migrantes e prostitutas.
Duas ativistas - uma prostituta e uma socióloga - criaram então a campanhaFairPlay (www.freiersein.de), para aproveitar um evento essencialmente masculino e, através da ironia, mostrar que prostitutas devem ser respeitadas, que elas têm direitos e que sexo seguro é um must.  
A campanha foi realizada nas doze cidades sedes de jogos. As ações eram feitas antes dos jogos, nas cercanias dos estádios ou dos ‘public viewing’. O que chamava a atenção eram os preservativos gigantes, muito coloridos, enquanto eram distribuidos cartões postais com as ‘10 Regras de Ouro para Clientes de Prostitutas’ e preservativos.
Como esperado, a horda feminina não compareceu, e as mulheres reclamavam dos negócios.
“Apesar de haver mais homens nas ruas, eles não querem nada. Eles gastaram seu dinheiro na viagem para a Alemanha e nas entradas para os jogos. O que sobrou é para cerveja...” (Uma prostituta de Hamburgo)
Todos os relatórios da polícia alemã depois da Copa confirmaram o que disseram as ONGs desde o início: não houve aumento do número de prostitutas nas cidades sedes de jogos, o movimento não foi diferente de quando há algum evento especial na cidade, e não houve nenhum caso especial de tráfico de mulheres.
Para organizações de prostitutas e ativistas na Alemanha, o positivo desta Copa foi que, desde 2002, quando da legalização da prostituição, foi a primeira vez que houve novamente uma mobilização nacional em torno do tema. 
Por isso a experiência da Copa foi tão importante: fez com que houvesse na Alemanha um fortalecimento das NGOs e ativistas em torno da luta pelos direitos de pessoas que se prostituem. Isso foi a base da qual se servem hoje para enfrentar de forma mais coesa as dificuldades políticas e sociais. 
Fonte: http://br.boell.org/pt-br/

terça-feira, 3 de junho de 2014

O imigrante e a perda de identidade

O imigrante e a perda de identidade

Você chega em outro país com idioma, costumes, tradições, clima, geografia, idiossincrasias que não são os seus. E vai ter se adaptar, ou isso, ou sofrer. Seus horários vão mudar, seus roteiros, sua alimentação, você vai estar sozinho. Nunca mais vai comer seus doces da infância, não vai ver nenhum rosto conhecido, não vai poder comer pitanga e nem jabuticaba. Você vai começar a perceber que ninguém acha graça das suas piadas, que para eles não fazem sentido; que as suas lembranças não os emocionam, porque não viveram nada parecido; e que as aventuras que trouxe do seu país acabam tornando- se desinteressantes. E se permitir, a solidão vai te comer. É a hora da reinvenção, de recriar- se. Com o tempo acontece um processo difícil de perda de identidade, ou pelo menos, de criação de uma outra. Você guarda a sua, essa que foi criada durante toda a sua existência, vai ter que deixá- la oprimida, sufocada no seu porão interior.
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Começará a falar como eles, a comportar- se como eles, e vai se estranhar. Esse indivíduo estranho que habita em você vai falar e agir como você não faria. É a lei de Darwin, a lei da sobrevivência, a lei do mais forte. Cresce um terceiro olho e um cérebro adicional, que vai te fazer pensar diferente e se adaptar ao ambiente. A maioria acaba indo embora, não resiste a esse transplante emocional sem anestesia que repercute na mente e corpo, que no final, são a mesma coisa.
A maioria dos sonhadores imigrantes não pensa e nem imagina que exista esse processo de perda e ganho, às vezes, só perda (ou mudança) de identidade.
Você que está aí sonhando em ir para outro país, pense nisso. Pense se está disposto a deixar de ser você para transformar- se em outro. E viver nesse outro ser estranho é um processo dolorido, demorado e difícil. Se vale a pena? “Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena.”
Mar português (Fernando Pessoa)
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Sonho da volta ao Brasil pode se tornar pesadelo

Por Liliana Tinoco Baeckert, swissinfo.ch 23. Abril 2014 - 15:56 Se você mora fora do Brasil e pensa em voltar, preste atenção: o tão sonhado regresso pode se transformar em pesadelo. Denominado pelos psicólogos de “síndrome do retorno”, o fenômeno acomete muitos imigrantes e pode levar desde à sensação de falta de identidade até a depressão. Comuns a quem volta à terra natal, os sintomas acontecem simplesmente porque o estresse de se readaptar à antiga cultura pode ser, pela surpresa, pior que a dificuldade em se adaptar a um país estrangeiro. Desavisado, o viajante é tomado de sentimentos como solidão, arrependimento, decepção e de não pertencimento àquela sociedade outrora tão conhecida. Como a cultura é dinâmica, não surpreende os psicólogos interculturais que o retorno mostre um cidadão e um país totalmente diferente daquele do passado. No entanto, quem toma o avião de volta geralmente ignora essa premissa. Lembranças boas A expectativa do retorno e da felicidade junto aos seus simplesmente esconde o fato de que depois de algum tempo, ninguém e nenhum lugar permanecem o mesmo. De acordo com Andrea Sebben, diretora da empresa de consultoria Equipe Andrea Sebben Psicologia Intercultural, a saudade colore o país natal e faz com que as lembranças boas fiquem ainda melhores. “A readaptação do retorno costuma ser mais custosa do que a da ida. Os seus horizontes se alargaram, mas quem ficou, não teve essa oportunidade. Por isso, a pessoa se sente incompreendida e sozinha no problema” , explica Andrea Sebben, que oferece serviços de Educação, Psicologia e Treinamento Intercultural. Mariana Andrade deu o depoimento Mariana Andrade deu o depoimento (Liliana Tinoco Baeckert) Síndrome do Retorno A nostalgia ao contrário – a tristeza por estar longe do país estrangeiro em detrimento da felicidade por ter voltado – tomam lugar rápido na vida dos recém chegados. Segundo a psicóloga Sylvia Dantas, coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Orientação Intercultural da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) reitera : “A incapacidade de readaptação gera a sensação de isolamento social. A saudade colore, mas a volta ao local que um dia foi familiar e se tornou estranho é um grande custo emocional.” Acredita-se que a Síndrome do Retorno, que os psicólogos preferem chamar de estresse de aculturação de retorno para não ter conotação de doença, possa ter sido agravada devido à crise dos países desenvolvidos nos últimos anos, fazendo um maior número brasileiros voltarem e alguns em situação financeira desfavorável. O Ministério das Relações Exteriores reconhece o problema, mas ainda não chegou ao cerne da questão. Com o intuito de reintegrar os brasileiros, o Itamaraty lançou o Guia de Retorno ao Brasil. Distribuído nas embaixadas e disponibilizado na página de internet do Ministério, o documento traz várias dicas sobre serviços e programas de acolhimento em áreas como educação, assistência financeira, serviços de assistência médica, além de outros. O Guia, no entanto, não menciona diretamente a questão do desencontro cultural. Quem ficou não compreende A psicologia intercultural e os estudo de questões referente ao tema é algo muito recente, com no máximo 30 anos. De acordo com Sylvia Dantas, é preciso que a sociedade tome conhecimento dessa problemática para que os efeitos sejam minimizados e haja menos casos de sofrimento extremo. “É importante que o imigrante saiba que ele pode ter problemas para se readaptar ao Brasil. Há relatos de pessoas que dizem não entender como não conseguem se adaptar ao país que idealizaram por tantos anos. E os amigos e a família que ficaram não compreendem o problema”, explica. PEDRO HENRIQUE KONZEN Gaúcho do FC Zurique vai ver a Copa nas férias Pedro Henrique (de branco) em plena ação no campeonato suíço, contra o FC Sion. O meio-campista Pedro Henrique Konzen chegou ao FC Zurique com 21 anos e, apesar do sobrenome, não falava alemão. Também teve um pouco de dificuldade com o frio suíço, diferente do Rio Grande do Sul. Hoje, com 23 anos, está adaptado e tem mais dois anos de contrato. Durante a Copa ele estará entre amigos e parentes no Brasil. [...] Sociedade Copa do Mundo 2014 Como prevenir A depressão pode ser tratada e os efeitos da aculturação reduzidos com o tempo, mas o importante é que as pessoas sejam preparadas para trilhar um caminho internacional. Segundo a Dra. Sylvia Dantas, cada indivíduo vai lidar com essas mudanças de forma diferente. A influência da aculturação vai depender tanto de fatores internos – como cada um lidará com a experiência - quanto externos, que seria o que vai encontrar quando voltar. Mas tomar ciência de que isso é um processo natural vivenciado por todos nessa situação ajuda muito. Para prevenir os efeitos, as duas profissionais recomendam a participação em workshops específicos sobre educação intercultural, o treinamento intercultural ou até a psicoterapia, em alguns casos especiais. Para quem se interessar, o Núcleo de Atendimento Intercultural da Unifesp oferece serviços gratuitos em atendimento e orientação individual, grupal (familiar), workshops à população e asseessoria a organizações públicas e privadas. O trabalho na Unifesp está se estruturando para atender pela internet, ainda sem data definida. A Equipe Andrea Sebben Consultoria oferece basicamente os mesmos serviços. Depoimentos Telma Reis (carioca de Niterói) “Quando vamos ao Brasil de férias, só vemos as coisas boas. Após 18 anos morando na Alemanha, decidi voltar por uma questão de doença. Na segunda semana, já percebi que ali já não era mais o meu país. Me choquei com a desorganização, com os preços e, principalmente, com a desonestidade de algumas pessoas. Quando eu reclamava do sistema, as pessoas não entendiam, porque para elas isso já é normal. A verdade é que ninguém reencontra o Brasil que deixou. Isso é um erro. Sonhamos em voltar, mas temos que nos preparar para ver um outro país, com pessoas diferentes daquelas que deixamos quando partimos. “ Mariana Andrade (mineira de Belo Horizonte) “Eu sofri na pele a decepção de voltar ao Brasil e me arrepender no terceiro mês. Depois de passar sete anos sofrendo de saudades da pátria, consegui convencer o meu marido suíço em tentar a vida com nossos filhos em Belo Horizonte. Só que o retorno foi uma experiência negativa em todos os sentidos. Como meu sonho sempre foi retornar, achei que sofria de infelicidade. Não me adaptava em nenhum país. Depois de morar na Suíça, eu mudei muito e não me dei conta disso. Só fui descobrir quando comecei a me irritar com alguns aspectos da cultura brasileira. Além disso, eu tinha medo o tempo todo. A minha cidade já não era segura para os meus filhos. O fator principal, no entanto, foram os salários baixos praticados no Brasil. Infelizmente, eu já tinha ido embora e me desfeito da minha casa. O sonho colorido de terras mais quentes não durou mais que dois anos. Agora aprendi a aceitar a Suíça como o melhor lugar para nossa família.” Alguns dos benefícios do treinamento intercultural: - Menor índice de depressão e ansiedades - Melhor adaptação ao país de origem - Mais estímulo para comunicação e desenvolvimento linguístico - Melhor entendimento de comportamentos diferentes - Desenvolvimento de competência intercultural - Compreensão dos sentimentos envolvidos no processo de adaptação. fonte: http://umabrasileiranabelgica.blogspot.com.br

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Porque é tão difícil voltar a viver no Brasil?

Porque é tão difícil voltar a viver no Brasil?

O Brasil com Z é um blog onde vários brasileiros se juntaram para escrever sobre suas experiências de vida no exterior.

Uma das integrantes, a Glenda, mora em Sevilha, na Espanha. E fez um texto excelente sobre essa eterna dúvida que a gente tem sobre "voltar ou não voltar" pro Brasil.

"Depois de duas semanas lendo sobre o porquê dos meus companheiros de Brasil com Z não quererem mais voltar a viver no Brasil, decidi escrever meu texto. Em 2009 já havíamos feito uma ronda sobre “voltar ou não voltar” entre os colaboradores do blog… os tempos eram outros, o pessoal também, mas quem quiser conferir pode clicar aqui. Inclusive eu dei minha opinião sobre a volta e decidir escrever de novo não porque tenha mudado de ideia, mas sim porque ampliei um pouco meu pensamento".
Não precisamos nem citar a quantidade de problemas, principalmente sociais, ambientais e econômicos que existem no Brasil, primeiro, porque nem vale a pena repetir, e outra, porque todo mundo está careca de saber que no nosso país falta segurança, falta educação e saúde pública, falta tolerância, falta tanta coisa e sobra outras mais, como desigualdades, exclusões, injustiças.

"Não sei quando volto ao Brasil pelo simples fato de que não sei se quero voltar ao Brasil. Gosto muito da vida que levo atualmente. A principal lição de vida que aprendi nestes 6 anos de Sevilha é que não é pobre o que menos tem, mas é rico o que menos necessita. Aqui aprendi que não preciso de luxos para viver feliz, que com pouco dinheiro no bolso posso me divertir, ter uma vida cultural relativamente agitada e ainda viajar de vez em quando. Aprendi que a felicidade não se encontra em shopping e que autoestima não está diretamente relacionada com chapinha e unhas bem feitas. E não que no Brasil eu tivesse um padrão de vida alto ou fosse uma patricinha de carteirinha, mas depois de viver 6 anos em uma casa com móveis alugados, nossa percepção de vida muda muito".
Futilidades à parte, aqui aprendi que se trabalha para viver e não se vive para trabalhar. Isso significa realmente aproveitar a vida. 

Na Holanda existem workaholics, pessoas obsessivas por trabalho, principalmente no meio universitário onde eu vivi. Mas existem as pessoas comuns, como eu e você, que tem um trabalho normal, e mesmo assim conseguem tirar férias na Grécia ou na Tailândia todo verão. Ou então ir para os festivais de música mais loucos da sua vida.

Pode ser tailândia...ou então um Festival Fodástico de música na Polônia. Eu Fui!!!
A escolha da onde ir é toda sua. E isso é não tem preço.
 

Horas extras, 60 horas de trabalho semanais, um final de semana em casa atolado de prazos esgotados? Óbvio que isso acontece, mas não é regra e nem cotidiano. "Conheço funcionários públicos que pedem redução de salário para poder ficar uma hora a mais com os filhos em casa", disse a Glenda.

Vivendo na Holanda, assim como a Glenda na Espanha, eu aprendi que carro é luxo. Carro é pra ser usado naquelas distâncias mesmo longas, tipo viagens de uma cidade pra outra.
Sabe porquê? Transporte público funciona. E a bicicleta é uma alternativa de transporte realmente viável, não apenas um luxo de alguns grupos ousados de pessoas, como no Brasil.

Pedalando na Holanda
Em Sevilla, nossa amiga Glenda pedalava 40 minutos até o trabalho, e olha que "Sevilla não é uma cidade pequena, tem quase 800 mil habitantes fora a zona metropolitana". Eu pedalava 10 minutos na beira da rodovia, de casa até a faculdade em Wageningen. Ops, correção: Na ciclovia que beirava a rodovia!! Com a liberdade de poder ouvir uma musica no fone, porque afinal não tenho que me preocupar em ser atropelada.
Realmente é uma sensação incrível você poder ir e vir sentindo o ventinho no rosto, de quebra fazer exercícios, e ainda economizar dinheiro. Que pode ser usado na próxima viagem de verão.

Em um ambiente internacional, cheio de outros imigrantes, aprende-se a tolerância, e esquece-se da hierarquia social. Vivemos no mesmo prédio do entregador de pizza, da faxineira, e do seu chefe. Sim, seu chefe. Compramos no mesmo mercado, e comemos no mesmo restaurante. Já falei disso em outro post. Confira.
Diferente da maioria das mulheres e meninas brasileiras, ninguém fica se preocupando em sair de casa com uma roupa que não está na moda. Ou então vestir aquela calça azul com glitter e uma blusa cor de rosa choque e estampa de oncinha, simplesmente porque hoje eu acordei com vontade de me vestir assim. Tudo bem, eu exagerei no modelito. Mas dá pra entender o conceito né pessoal? O corpo é seu, a roupa é sua, consequentemente a decisão sobre o que vestir também é sua. Cada um no seu quadrado.

"O normal pode ser qualquer coisa, que cada pessoa é um mundo e que cada um de nós cuida do seu próprio mundo pessoal, sem precisar de aparências ou máscaras. E ao mesmo tempo aprendi que todos devemos cuidar do nosso mundo coletivo, que a força do ser em conjunto é muito importante e que, melhor de tudo, dá resultados.
Então, depois de conviver com tantos outros valores e realidades, muitas vezes penso que não tenho vontade de voltar a morar no Brasil. Quem, depois de aprender a cruzar uma rua pela faixa de segurança sem nem precisar olhar para os lados ou se acostumar a voltar para casa a pé às 3 da manhã, desfrutando do cheiro das flores de laranjeira e do silêncio da madrugada sem precisar olhar para trás, pensa um dia em regressar à sua pátria amada? Quem depois de se habituar a pegar a sua bicicleta e fazer um piquenique no parque público ou de ver uma roda de velhinhos e velhinhas tomando cerveja (sem álcool) felizes e cheirosos no mesmo bar que a garotada de 20 anos...Quem diante de tudo isso pode cogitar a hipótese de não viver mais essas coisas, aparentemente tão banais, mas que no Brasil parece que há muito tempo não existe?"
Claro, nem tudo são flores… Desemprego rola solto nos últimos tempos na Europa. Mas o Brasil oferece bolsas de doutorado, e eu estou realmente com vontade de começar isso o mais rápido possível. Mais cedo ou mais tarde todo mundo tem que pensar sobre a fatídica decisão: volto ou não volto pro Brasil?

Pro pessoal do Brasil com Z, e também pra mim, reina a pergunta: "Qualidade de vida acessível a um bolso pouco cheio ou um bom trabalho (ou um trabalho qualquer)?
Meu consolo é que este mundo é enorme, como já dizia o poeta, «grande demais para nascer e morrer no mesmo lugar». Confesso que não sei se tenho o mesmo ânimo para recomeçar tudo de novo em um país novo, mas quem disse que se eu voltasse ao Brasil eu não teria que recomeçar do zero? E entre recomeçar com qualidade de vida e recomeçar rodeada de violência, desigualdades e injustiças, só fico na dúvida porque neste último caso também estaria rodeada de muito amor, amigos e família (únicos motivos reais que me fazem pensar em voltar a viver no Brasil)".

"Enfim, todo mundo deveria ter a oportunidade de sair da sua bolha, ver o mundo com outros olhos, aprender novos valores e, quem sabe, voltar e conseguir lutar por um lugar melhor. O Brasil é um país com duas caras, lindo e horrível ao mesmo tempo. Sei que sou uma privilegiada por ter oportunidade de estudar o que eu gosto. Adoraria poder voltar e tentar fazer do meu Brasil um lugar melhor para se viver, mas ao mesmo tempo me sinto muito ingênua em pensar que isso poderia ser possível. Ninguém tem a resposta e não sou a única em duvidar do “desenvolvimento” do Brasil". -> Definitivamente ela não é a única.
Quem tem a experiência de viver na Europa com uma condição aceitável, e viaja como eu viajei, uma hora ou outra vai parar de pensar em salários exorbitantes, cargos de presidência, e toda essa coisa de "preciso de muito dinheiro para ser feliz". Já falei disso em outro postleia.
"Embora muita gente siga pensando ao contrário, dinheiro não é e nem nunca foi garantia de felicidade. Felicidade para mim é isso, poder levar a vida sem pausa, mas sem pressa, sem paradeiro se eu assim quiser. Posso não estar com os bolsos cheios, mas percebi que não necessito nada disso para ter uma vida confortável, alegre e divertida".
Tivemos que cruzar o oceano para perceber isso? Sim, tivemos. Não poderia ter aprendido tudo isso no Brasil? Claro que sim, mas quem sabe a comparativa não existiria. 
Como diria John Lennon, "you may say I am a dreamer, but I am not the only one". Muita gente compartilha da opinião de viver fora. Não é porque a gente é mimado e metido a rico. Lendo esse texto dá pra entender que o motivo é de fato mais profundo.
Fatores emocionais como amores e amigos também fazem parte da nossa tomada de decisão. E condição de vida também. Vale a pena aproveitar a oportunidade de viver em um lugar que parece mais justo do que o lugar onde eu nasci. Talvez seja a idade, eles tem séculos a mais do que nós. É, mas eu não conto a minha idade em séculos. 

Não sei sobre vocês, mas eu não tenho tempo a perder.
E aí, qual a sua opinião? 

BY http://virandogringa.blogspot.com.br/

Por que é tão difícil ter vontade de voltar a viver no Brasil?


Depois de duas semanas lendo sobre o porquê dos meus companheiros do Brasil com Z  não quererem mais voltar a viver no Brasil, decidi escrever meu texto. Em 2009 já havíamos feito uma ronda sobre “voltar ou não voltar” entre os colaboradores deste blog coletivo de expatriad@s que vivem nos mais diversos cantos do mundo… os tempos eram outros, o pessoal também, mas quem quiser conferir pode clicar aqui. Inclusive eu dei minha opinião sobre a volta e decidir escrever de novo não porque tenha mudado de ideia, mas sim porque ampliei um pouco meu pensamento.
Não vou enumerar aqui a quantidade de problemas, principalmente sociais, ambientais e econômicos que existem no Brasil, uma porque depois dessa série de posts não vale a pena repetir, outra, porque todo mundo está careca de saber que no nosso país falta segurança, falta educação e saúde pública, falta tolerância, falta tanta coisa e sobra outras mais, como desigualdades, exclusões, injustiças.
Não sei quando volto ao Brasil pelo simples fato de que não sei se quero voltar ao Brasil.Gosto muito da vida que levo atualmente. A principal lição de vida que aprendi nestes 6 anos de Sevilha é que não é pobre o que menos tem, mas o que menos necessita. Aqui aprendi que não preciso de luxos para viver feliz, que com pouco dinheiro no bolso posso me divertir, ter uma vida cultural relativamente agitada e ainda viajar de vez em quando. Aprendi que a felicidade não se encontra em shopping e que autoestima não está diretamente relacionada com chapinha e unhas bem feitas. E não que no Brasil eu tivesse um padrão de vida alto ou fosse uma patricinha de carteirinha, mas depois de viver 6 anos em uma casa com móveis alugados, nossa percepção de vida muda muito.
Futilidades à parte, aqui aprendi que se trabalha para viver e não se vive para trabalhar. Isso significa realmente aproveitar a vida. A grande maioria do pessoal aqui do sul trabalha o justo e necessário para poder garantir um lazer a nível máximo, um happy hour no final do dia, uma escapada no final de semana e umas férias de verão de um mês. Horas extras, 60 horas de trabalho semanais, um final de semana em casa atolado de prazos esgotados? Óbvio que isso acontece, mas não é regra e nem o cotidiano dos sevillanos. Conheço funcionários públicos que pedem redução de salário para poder ficar uma hora a mais com os filhos em casa.
Aprendi a deixar o carro na garagem (leia-se estacionado na rua) e usar o transporte público. Voltei a aprender a andar de bicicleta. De onde eu moro eu chego a qualquer parte da cidade em menos de 40 minutos de pedalada (e Sevilla não é uma cidade pequena, tem quase 800 mil habitantes fora a zona metropolitana). Não tem preço poder ir e vir respirando ar fresco (ok, nem sempre, afinal, estamos numa zona urbana) e de quebra fazer exercícios.
Aprendi a ser tolerante, a respeitar mais as diferenças, a descobrir a diversidade de raças, culturas, estilos de vida e pensamento muito diferentes dos nossos, brasileiros, muitas vezes machistas, egoístas e hipócritas (como também já foi citado nos posts dos meus colegas de Brasil com Z). Aprendi que viver no mesmo edifício que o motorista do caminhão de lixo e comer no mesmo restaurante da faxineira da piscina é uma coisa absolutamente normal,  pois a tal diferença de “classes” é estupidamente menor. Aprendi a conviver com famílias com dois pais, duas mães e até duas mães e um pai, a não falar mal de uma mulher escabelada na padaria, a não ficar horrorizada com um «modelito» fora do «normal». Aprendi que o normal pode ser qualquer coisa, que cada pessoa é um mundo e que cada um de nós cuida do seu próprio mundo pessoal, sem precisar de aparências ou máscaras. E ao mesmo tempo aprendi que todos devemos cuidar do nosso mundo coletivo, que a força do ser em conjunto é muito importante e que, melhor de tudo, dá resultados.
Aprendi que as diferenças nem sempre geram integração, que podem causar desigualdades por estes lados também. Que imigrante é uma classe de pessoa que tem que correr atrás do prejuízo, que tem que lutar muito para conseguir se estabelecer e que, por questões que fogem as suas capacidades, nem sempre consegue o seu lugar ao sol. Aprendi que o ser humano, não importa a sua nacionalidade, está longe de ser perfeito, e apesar de tanta tolerância e igualdade por um lado, pode ser bastante preconceituoso e injusto por outro.
Então, depois de conviver com tantos outros valores e realidades, muitas vezes penso que não tenho vontade de voltar a morar no Brasil. Quem, depois de aprender a cruzar uma rua pela faixa de segurança sem nem precisar olhar para os lados ou se acostumar a voltar para casa a pé às 3 da manhã, desfrutando do cheiro das flores de laranjeira e do silêncio da madrugada sem precisar olhar para trás, pensa um dia em regressar à sua pátria amada? Quem depois de dar risada (ou se irritar, no meu caso) com as crianças de uniforme do colégio jogando bola em plena praça central, de se habituar a pegar a sua bicicleta e fazer um piquenique no parque público ou de ver uma roda de velhinhos e velhinhas tomando cerveja (sem álcool) felizes e cheirosos no mesmo bar que a garotada de 20 anos pode cogitar a hipótese de não viver mais essas coisas, aparentemente tão banais, mas que no Brasil parece que há muito tempo não existe?
Claro, nem tudo são rosas… Não sou casada com espanhol, não tenho meu diploma de arquiteta homologado para assinar projetos na Espanha (se bem que na atual situação econômica, «projetos» é coisa rara por aqui), vivo com um visto de estudante que não me dá direito à nacionalidade, não tenho direito à saúde pública (apenas atendimento de emergência) e pelo menos nos próximos anos não vejo nenhum futuro profissional na minha área (nem eu, nem 20% da população ativa do país, nem a maioria absoluta dos jovens recém-formados). Não tenho filhos espanhóis e em teoria, nada me prende aqui. Mais cedo ou mais tarde (cada vez mais é mais cedo, já que estou no segundo ano do doutorado) vou ter que tomar a fatídica decisão: volto ou não volto ao Brasil? Qualidade de vida acessível a um bolso pouco cheio ou um bom trabalho (ou um trabalho qualquer)?)?
Meu consolo é que este mundo é enorme, como já dizia o poeta, «grande demais para nascer e morrer no mesmo lugar». Confesso que não sei se tenho o mesmo ânimo para recomeçar tudo de novo em um país novo, mas quem disse que se eu voltasse ao Brasil eu não teria que recomeçar do zero? E entre recomeçar com qualidade de vida e recomeçar rodeada de violência, desigualdades e injustiças, só fico na dúvida porque neste último caso também estaria rodeada de muito amor, amigos e família (únicos motivos reais que me fazem pensar em voltar a viver no Brasil).
Enfim, todo mundo deveria ter a oportunidade de sair da sua bolha, ver o mundo com outros olhos, aprender novos valores e, quem sabe, voltar e conseguir lutar por um lugar melhor. O Brasil é um país com duas caras, lindo e horrível ao mesmo tempo. Sei que sou uma privilegiada por estar onde estou e que muita gente se tivesse condições já estava com as malas prontas e a passagem comprada para se mandar… e a gente aqui falando em voltar. Adoraria poder voltar e tentar fazer do meu Brasil um lugar melhor para se viver, mas ao mesmo tempo me sinto muito ingênua em pensar que isso poderia ser possível. Ninguém tem a resposta e não sou a única em duvidar do “desenvolvimento” do Brasil.
Queria viver entre os «meus», mas a cada dia que passa me sinto menos parte dos que ficaram. Já não penso em altos salários, altos cargos, muito dinheiro para ser feliz. Embora muita gente siga pensando ao contrário, dinheiro não é e nem nunca foi garantia de felicidade. Felicidade para mim é isso, poder levar a vida sem pausa, mas sem pressa, sem paradeiro se eu assim quiser. Posso não estar com os bolsos cheios, mas percebi que não necessito nada disso para ter uma vida confortável, alegre e divertida.
Tive que cruzar o oceano para perceber isso? Sim. Não poderia ter aprendido tudo isso no Brasil? Claro que sim, mas quem sabe a comparativa não existiria. Enquanto isso, continuo aproveitando esta grande oportunidade de fazer parte de outro mundo, que apesar de todos os problemas que existem como em um lugar qualquer, parece que é mais justo e respeitoso que o mundo onde nasci.

By http://www.coisaparecida.com/
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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Visto para os EUA

Nos últimos anos, a demanda de vistos de brasileiros para os Estados Unidos, quer a turismo, quer a negócios, disparou: foram 800.000 solicitações apenas em 2011. E não foi só a demanda que cresceu: entre 2001 e 2010, o volume de vistos concedidos para brasileiros aumentou mais de 144%, passando de 223.729 em 2001 para 546.866 em 2010. Dessa forma, os EUA se viram obrigados a reforçar o número de funcionários de seus consulados e acelerar os trâmites no país. O país também colhe benefícios: segundo o Departamento de Comércio dos EUA, os brasileiros gastam em média 5.000 dólares em cada viagem ao país. Os viajantes brasileiros estão entre as três nacionalidades que mais deixam dinheiro ao visitarem território americano, ao lado de chineses e indianos. Entenda a seguir quais são hoje os trâmites de concessão de visto para os EUA – e porque os brasileiros são tão bem-vindos ao país.
Segundo afirmou o presidente Barack Obama, esta é uma de injetar mais recursos na economia do país, que ainda se recupera da recessão. "A cada ano, dezenas de milhões de turistas de todo o mundo vêm visitar os Estados Unidos. E quanto mais visitantes vierem, mais americanos voltarão a trabalhar", afirmou. "Queremos mais gente vindo facilmente aos Estados Unidos".
Em janeiro deste ano, os EUA adotaram novas regras para simplificar e agilizar o processo de obtenção de vistos para turistas. Já em fevereiro, o Departamento de Estado americano afirmou ter reduzido 'drasticamente' os tempos de espera para a obtenção de visto em suas representações diplomáticas no Brasil. Quem solicita um visto americano no Rio de Janeiro ou em Brasília espera agora duas semanas ou menos para ser entrevistado, segundo o Departamento. Já em São Paulo, o prazo médio teria caído para menos de trinta dias. Mas recomenda-se que o brasileiro procure o consulado com pelo menos três meses de antecedência antes de viajar.

Formulário
O primeiro passo para obter o visto norte-americano é preencher o formulário DS-160, disponível no site https://ceac.state.gov/genniv/ (em inglês). É preciso ficar atento às informações prestadas, já que inconsistências nos dados podem por todo o processo a perder.
Pagamento
Para os vistos do tipo (B1/B2, C1/D, F, M, J, I, TN, TD) a taxa é de 160 dólares. Já os tipos (H, L, O, P, Q, R) custam 190 dólares. Os vistos tipo E-1, E-2 e E-3 têm taxa de 270 dólares e o visto de noivo ou noiva (tipo k), 240 dólares. O pagamento pode ser feito por meio de cartão de crédito pelo site do agendamento, por telefone, em dinheiro em qualquer agência do Citibank ou por boleto bancário. Não há cobrança separada para agendamento ou envio do passaporte.
Agendamento
De posse do número do código de barras do DS-160 e do recibo de pagamento da taxa, o agendamento da entrevista pode ser feito pelo site http://brazil.usvisa-info.com ou pelo telefone http://usvisa-info.com/pt-BR/selfservice/us_service_options. É preciso ter em mãos o número do passaporte. Primeiro, é preciso agendar a data de entrevista no consulado, em seguida a data para coleta de dados (foto e impressões digitais) no centro de atendimento (CASV), que é feita antes da entrevista.
Coleta de dados
Agendamento feito, é preciso ir a um dos Centros de Atendimento ao Solicitante de Visto (CASV) para coleta dos dados biométricos (impressões digitais e foto). O solicitante deve levar o passaporte e a página de confirmação do formulário DS-160. Pessoas acima dos 66 anos ou com até 15 anos estão isentas desse processo. Basta levar uma foto 5×7 e a página da confirmação do formulário DS-160 no centro de atendimento. Confira aqui os endereços dos CASV http://usvisa-info.com/pt-BR/selfservice/us_asc_information.
Entrevista
O último passo é a entrevista no consulado. Na ocasião, é preciso levar passaporte e a página de confirmação com o código de barras do formulário DS-160. Menores de 16 anos ou maiores de 65 anos são dispensados da entrevista, mas podem ser convocados se a embaixada ou consulado julgar necessário.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

DIA DAS CRIANÇAS?...

 
Porque eu sou desapegado das datas públicas, só hoje me veio o sentimento do dia das crianças. E aí pensei numa das muitas infâncias que perdi por estar irremediavelmente longe. Quando a gente se encontrou da última vez, a idade já tinha chegado para ela. Fazia tempo demais. Eu não tinha ilusões, não esperava ser reconhecido. Os laços de sangue são os menos apertados e, como crescemos distantes, eu deveria ser para ela apenas um nome que alguém mencionou um dia nos últimos muitos anos. A gente se olhou e eu me arrependi por ter chegado tarde demais para muitas coisas. Eu queria ter tido a chance de saber mais sobre ela. Naquele dia, pela primeira vez, me dei conta de que ela já tinha sido criança. E eu não tinha - e ainda agora não tenho - a menor ideia de como foi aquele período para ela. Sempre considerei a mulher pronta que conheci, e não a pessoa em formação, o conjunto de acontecimentos que a fizeram como é. Eu daria tudo pra voltar, com o interesse de hoje, à época em que nos conhecemos. Queria perguntar como foi tudo. Como ela se sentia, do que brincou, o que planejou para a vida. Tenho essa impressão devastadora de que ela é uma dessas criaturas ingênuas que se conformaram em aceitar o que veio. Que viveu sem lutar, pra não chatear os outros. E por isso, não sei se foi feliz. Antigamente ela ria das pequenas coisas. Mas pode ser que não risse por achar graça. Quando sacaneávamos o jeito dela de espirrar, talvez não fosse engraçado. Talvez ela risse apenas porque aceitava, como sempre aceitou, o que era agradável para os outros. Lembro que ela sempre me elogiava quando eu ia ao barbeiro, mas fico parecendo um ET orelhudo de cabelo cortado, e até isso é uma prova do quanto ela se esforçou a vida inteira para agradar. Se eu puxar a memória até o fundo, só consigo lembrar de um gosto dela. Doce. De todo o tipo. Pensando agora, parece que ela buscou no açúcar o sabor que faltava nos acontecimentos da vida. É por isso que, embora minhas escolhas me obriguem a não acompanhar a vida de tantas crianças que nasceram dos meus amados nos últimos anos, é a infância dessa pessoa que nasceu lá atrás que me interessa tanto hoje.

Naquele nosso último encontro, no meio da minha insegurança, ela me abraçou sem cerimônia e me enxergou mais de duas décadas atrás. Por um momento, a pele marcada em volta dos nossos velhos olhos serviu como moldura antiga pro mesmo olhar jovem de quando nos conhecemos. Ela falou meu nome quando eu perguntei: "Vó, vc lembra quem eu sou?". E a boa memória dela me castigou por eu ter sido negligente todos esses anos...

Eu perdi, sem cerimônia, a oportunidade de falar ontem com as crianças da minha vida. Mas hoje eu vou ligar para a minha avó... Obrigado por estar viva, dona Idalice!

BY http://www.madrugaemclaro.blogspot.com.br/

VIVENDO NO EXTERIOR


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Imigrante ilegal: nem sempre a criatividade ajuda

A imigração clandestina é um grave problema que os grandes centros urbanos enfrentam. Os EUA, por exemplo, possuem 40 milhões de imigrantes e, embora possuam rígidas normas de segurança, cerca 10 milhões deles vivem de forma ilegal.
Uma das maneiras de atravessar ilegalmente a fronteira é pelo mar, de onde constantemente seguem precárias balsas originadas de Cuba, Haiti e República Dominicana, mas a cada dia os clandestinos procuram formas – no mínimo – criativas para alcançar seus objetivos. As fotos a seguir registram uma curiosa apreensão feita em um furgão.