sábado, 26 de abril de 2014

Busque Amor novas artes, novo engenho

Busque Amor novas artes, novo engenho

Busque Amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.

                         Luís de Camões

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Portugal comemora nesta sexta-feira os 40 anos da Revolução dos Cravos


Movimento de 25 de abril de 1974 terminou com a ditadura no país.
Tomada do poder não teve resistência e cravo virou símbolo da revolução.


 Portugal comemora nesta sexta-feira (25) os 40 anos da Revolução dos Cravos, movimento que que terminou com o regime ditatorial no país. Também conhecido como "25 de Abril" ou "Dia da Liberdade" em Portugal, o acontecimento foi uma revolta liderada em 25 de abril de 1974 por oficiais intermediários, em grande parte capitães que tinham participado da guerra colonial na África, contra a ditadura iniciada em 1926 por Antônio de Oliveira Salazar e encabeçada, a partir de 1968, por Marcelo Caetano.
Veja acima vídeo histórico do 'Memória Globo'
Os militares revoltosos destítuiram sem grande resistência o governo, dando início a uma transição para a democracia. Por isso denomina-se "Dia da Liberdade" o feriado de 25 de abril em Portugal. A associação com os cravos se deve ao fato de que essas flores foram distribuídas aos soldados durante o golpe. Os militares as colocaram nos canos de suas espingardas, criando um símbolo para a revolução.
A revolução foi protagonizada por um grupo de militares comandado pelos oficiais Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Lourenço, e começou a ganhar forma enquanto trocavam um pneu furado.
A lembrança foi relatada à Agência Efe por Vasco Lourenço, hoje presidente da Associação 25 de Abril, criada para manter vivo o espírito daquele movimento que acabou num piscar de olhos com o regime e criou a base para a volta da democracia em Portugal.
Basco Lourenço foi um dos organizadores da Revolução dos Cravos (Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP)Vasco Lourenço foi um dos organizadores da
Revolução dos Cravos (Foto: Patricia de Melo
Moreira/AFP)
"Quando retornávamos de uma de nossas primeiras reuniões, tivemos um pneu furado e o trocamos. Eram duas da madrugada, mais ou menos, quando disse a Otelo que não íamos solucionar nada com requerimentos e papéis, que devíamos dar um golpe de Estado e convocar eleições. Ele me olhou e disse: 'Mas você também pensa assim. Esse é meu sonho!'", contou.
De encontros como esse entre militares, surgiu o Movimento das Forças Armadas (MFA), uma entidade nascida em 1973 com o objetivo oficial de "recuperar o prestígio" do exército entre a população e resolver algumas exigências "de tipo corporativo".
Surpreendentemente, o MFA foi autorizado pelo executivo de Marcelo Caetano, herdeiro do ditador Antonio de Oliveira Salazar - morto quatro anos antes -, o que os permitiu atuar dentro de certa legalidade.
"Essa estrutura permitiu nos organizar e reunir, não dissemos abertamente que íamos conspirar contra o governo e dar um golpe de Estado, embora no fundo o propósito era derrubar o fascismo e a ditadura", explicou Basco Lourenço.
Os militares protestavam então pela guerra que Portugal mantinha em várias de suas colônias, um conflito sangrento que se transformou na faísca que acendeu o pavio da Revolução.
Dançarinos se apresentam em rua de Lisboa durante comemoração da Revolução dos Cravos, movimento que em 1974 resultou no fim do regime ditatorial vivido em Portugal (Foto: Reuters)Dançarinos se apresentam em rua de Lisboa
durante comemoração da Revolução dos Cravos
em 2011 (Foto: Reuters)
Golpe de estado
No final de fevereiro de 1974, tudo se acelerou. A publicação de um livro do general Antonio Spinola que defendia uma solução política para as guerras coloniais pôs em alerta o regime.
Como consequência, Basco Lourenço foi transferido para as Ilhas Açores, situadas no meio do Atlântico, a 1.500 quilômetros de Lisboa. E, no dia 16 de março, surgiu uma primeira tentativa de golpe de Estado, liderada por seguidores de Spinola, mas que não foi bem sucedida.
O antigo líder do MFA só soube do golpe de 25 de abril por meio de uma mensagem cifrada enviada por telegrama a uma conhecida: 'Tia Aurora, sigo para os Estados Unidos da América 25.0300'. Um abraço, primo Antonio'.
"O interessante vinha no final, já que me dizia a data e a hora na qual começaria o golpe", relatou Basco Lourenço.
Chegado o dia, Lourenço disse que passou um dos momentos mais angustiantes de sua vida. "Pensava no que teria feito se estivesse no lugar de Otelo, e sabia que teria ocupado uma emissora de rádio. Por isso passei a noite zapeando de uma emissora para outra".
"Primeiro escutei um comunicado em uma emissora no qual se convocava médicos e enfermeiras a irem aos hospitais, o que não me permitiu saber se era nosso ou não. Passaram uns minutos, que a mim pareciam horas, pararam a marcha militar, e escutei os nossos. Fiquei louco", afirmou.
Revolução pacífica
Placa colocada perto do túmulo do ex-ditador português Antônio Salazar no cemitério Vimieiro (Foto: Francisco Leong/AFP)Placa colocada perto do túmulo do ex-ditador português Antônio Salazar no cemitério Vimieiro, em Portugal (Foto: Francisco Leong/AFP)
O hoje coronel atribui à experiência adquirida pelos militares nas guerras coloniais o fato de a Revolução dos Cravos ter sido pacífica, sem derramamento de sangue, o que também ajudou ao apoio da população ao levante.
Na sua opinião, foi "a melhor operação militar na história de Portugal".
"Ninguém esperava que ocorresse isso, nem sequer os serviços de espionagem, inclusive tínhamos no país uma esquadra da Otan", destacou Basco Lourenço, que tem apenas um 'mas' sobre o fato ocorrido há 40 anos atrás.
"Nosso grande defeito foi não ter preparado bem o dia seguinte. Não ter limpado todo o aparelho criou problemas que mais tarde fizeram com que hoje estejamos como estamos", lamentou.
São frequentes suas críticas ao atual governo português, de tendência conservadora, e às políticas de austeridade dos últimos anos, marcados pelo programa de ajustes estipulado com a União Europeia e o FMI em troca de um resgate financeiro.
"Sinto uma grande desilusão, não acredito nos políticos de hoje", admitiu o militar, atualmente com 71 anos, defensor de 'uma nova revolução'
http://g1.globo.com/

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Casa do Leitor, Madrid- Espanha


Eu participei na última terça e quarta- feira (29 e 30 de janeiro) de um curso intensivo  sobre literatura infantil em Madri, Espanha. “Leer sin saber leer” (“Ler sem saber ler”) voltado para o público de 0 a 6 anos. Fiquei absolutamente surpresa com a riqueza literária existente para essa faixa- etária. Literatura para bebês e pais de bebês também. Fascinante. Nesse post só vou mostrar um pouco o local do curso e depois vou contando as minhas descobertas literárias para a turminha. O curso aconteceu na “Casa del Lector”, no centro cultural “Matadero”, que era um antigo matadouro e mercado de gado do princípio do século XX e que manteve suas características originais nos seus 42 edifícios.
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terça-feira, 22 de abril de 2014

¿POR QUÉ CAFÉS, CAFETERÍAS?




Cuando vine a vivir a Barcelona, una amiga me preguntó a qué olía la ciudad, era una manera particular suya de, aunque de lejos, conocerla un poco. Le contesté que para mí olía a café. En aquel momento no me di cuenta o no pensé mucho sobre mi respuesta. Sólo ahora, 9 años después es que consigo empezar a comprender.

EN BARCELONA APRENDÍ MUCHAS COSAS, DESCUBRÍ BASTANTE SOBRE MÍ MISMA, CREO QUE ME ENCONTRÉ Y ME PERDÍ.

Dentre las cosas que aprendí a querer, están las cafeterías, las muchas que hay: las de toda la vida, llenas de historia en su interior, el encanto del pasado; las más modernas; aquellas para ir con niños y pasar un buen rato en família; otras para estar en compania de un libro o con amigas para charlar.

Si hay algo que descobrí que me gusta, es sentarme en un cafetería, pedir un café y observar. Es dejar pasar el tiempo. Y Barcelona es el lugar perfecto para eso, por la infinidad de lugares interesantes que tiene, por su ritmo, por su gente.

Mi objetivo es conocer tantas y cuantas cafeterías yo pueda, es compartir mis momentos en cada una de ellas, es disfrutar de un buen café, es invitarte a acompañarme en esta ruta, la ruta del café.

¿Quieres ir De Café por Barcelona conmigo?


fonte: http://decafeporbarcelona.wordpress.com/

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Que tal aprender um pouco a arte de beber um bom vinho?

11/04/2014 10h36 - Atualizado em 11/04/2014 12h20

Iniciação no mundo dos vinhos: um guia rápido e prático sobre a bebida

Vinhos e espumantes conquistam apreciadores de todas as classes sociais.
Confira dicas sobre tipos de taça, temperatura de serviço e harmonização.

Flavio FlarysDo G1 Região dos Lagos
1 comentário
Logo Inter TV RJ Gastronomia (Foto: Inter TV)
A cena é clássica: na prateleira de um supermercado ou diante de uma carta no restaurante com diversas variedades, o cliente olha para todas as opções de vinho disponíveis e fica completamente perdido em relação a qual bebida levar para casa ou pedir ao garçom. Qual combina melhor com o prato que eu vou servir (ou pedir)? Será que esta uva é muito rascante? Chileno, argentino, brasileiro, italiano,... Safra, isto importa? Calma! Em um primeiro momento, é bem difícil escolher e compreender este universo tão vasto dos vinhos. Então, é necessário enumerar algumas atividades interessantes para quem deseja se aprofundar no ramo. Nada de informações teóricas: nesta matéria, caminhos serão sugeridos para ajudar nos primeiros passos deste mundo fascinante. Esteja com as taças a postos!
Com tantas opções, é realmente difícil escolher (Foto: Flavio Flarys / G1)Com tantas opções, é realmente difícil escolher (Foto: Flavio Flarys / G1)
Taças Brodeaux e flûte (Foto: Carlos Sampaio / Mundo dos Vinhos)Taças Bordeaux e flûte são ideais para se ter
(Foto: Divulgação / Mundo dos Vinhos)
E por falar em taças, será que elas são realmente necessárias? Sim e não. Você pode ouvir uma ópera num radinho de pilha, mas isto não é muito recomendável. Assim como a taça, que é o principal instrumento do apreciador, enaltecendo as qualidades do líquido. Cada estilo de vinho tem sua própria taça correspondente, mas as "Bordeaux" se adequam a praticamente todos eles: pode-se servir os brancos e tintos nelas sem problemas! Também é bom ter algumas taças flûte, específicas para espumantes, que retêm o perlage (pequenas bolhas do líquido) por mais tempo. E não se esqueça: jamais encha a taça com mais de um terço da sua capacidade e, ao segurá-la, sempre opte pela base ou haste e nunca pelo bojo, senão aumentará a temperatura do líquido, mudando suas características no paladar. Ah, a temperatura... 
Assim como a taça, a temperatura do vinho é importantíssima! Afinal, quase ninguém gosta de refrigerante quente nem café expresso gelado. E o mito de que o "vinho tinto tem que ser servido na temperatura ambiente" é apenas... um mito. Aqui no Brasil, onde a temperatura ambiente pode chegar a muito mais que 30ºC, o vinho ficaria demasiadamente quente se não fosse previamente refrescado. Genericamente, podemos atribuir as seguintes temperaturas para os espumantes e vinhos: 8ºC para espumantes (2 horas na geladeira + um balde de gelo para manter), 12ºC para os brancos (1 hora na geladeira) e 17ºC para os tintos (20 minutos na geladeira). Lembre-se: vinho muito gelado mascara os aromas e muito quente faz o álcool sobressair. A ordem de serviço será sempre primeiro os espumantes, depois os brancos e a seguir os tintos, sendo os leves antes dos encorpados.
Provar vinhos de diferentes uvas é uma ótima experiência (Foto: Flavio Flarys / G1)Provar vinhos de diferentes uvas é uma ótima
experiência (Foto: Flavio Flarys / G1)
Um começo interessante é comprar vinhos de uvas diferentes e provar. Estabeleça uma faixa de preços e vá conhecendo cada uma delas: Merlot, Cabernet Sauvignon, Carmenere, Malbec, Pinot Noir, Tannat e Syrah são algumas interessantes neste início (este tipo de vinho é chamado de varietal, produzido a partir de uma variedade de uva). Entre as brancas, a Sauvignon Blanc e Chardonnay são indispensáveis de se conhecer. Em relação às safras, neste primeiro momento, não se preocupe: isto só importa realmente para vinhos considerados mais "sérios", com potencial de guarda. Para os mais simples, é interessante saber que os tintos não devem passar de 6 anos e os brancos de 4 anos da colheita (o ano da safra, que vem estampado no rótulo).
Uma boa ideia é juntar um grupo de amigos e comprar algumas garrafas com estas uvas, assim, o custo será dividido e todos poderão provar um pouco de cada variedade e anotar suas impressões. Ao escrever as próprias percepções, o aprendizado já se inicia. Confira, abaixo, uma tabela simples de impressões de vinho:
Vinho:   _____________________
Uva:  _______________________
Produtor:   ___________________
Safra:  ______________________
Teor Alcoólico:  _______________
Preço:   _____________________
Origem:  ____________________
Aspecto visual: _______________
Análise olfativa:  ______________
Análise gustativa:   ____________
Nota final: ___________________
Após escolher suas uvas preferidas, dê um passo adiante: compre vinhos da mesma uva e de países diferentes. Cada produtor escolhe um método diferente na vinificação, e você perceberá que o sabor muda completamente entre determinados vinhos. Agite a taça e tente identificar os aromas, uma tarefa muito complexa, mas instigante. Vários fatores podem influenciar no produto final: o tipo de solo no cultivo, a data da colheita, o uso - ou não - de barricas de madeira, e só há uma maneira de descobrir as peculiaridades de cada rótulo: provando!
Harmonizar comida com vinhos é uma tarefa muito difícil (Foto: Flavio Flarys / G1)Harmonizar comida com vinhos é uma tarefa muito
difícil (Foto: Flavio Flarys / G1)





Ao provar, é sempre aconselhável acompanhar a bebida com algum alimento. E aí começa o capítulo mais difícil de toda a experiência: combinar vinhos com comida é prazeroso, mas muito complexo. Deve-se avaliar as características de ambos, para aproveitar suas afinidades ou contrastes. Não acredite em fórmulas prontas: peixes com vinhos brancos e carnes vermelhas com vinhos tintos normalmente combinam, mas nem sempre. O molho, o ponto da carne, a uva, tudo influencia na harmonização. Preste atenção no peso do vinho e da comida: pratos leves com vinhos leves e pratos consistentes com vinhos encorpados são boas dicas - mas não únicas - para harmonizar uma refeição.
Nos restaurantes, esta tarefa é exercida pelo sommelier. Acredite neste profissional e delegue a ele a escolha do vinho para acompanhar o prato que será servido. Ele, certamente, conhece o cardápio e sabe quais os melhores vinhos para combinar com o que será servido. Uma informação importante que o sommelier precisa ter é qual o valor que o cliente está disposto a pagar pelo vinho. Não se acanhe: diga qual prato vai pedir e quanto quer gastar com a bebida.
Sommelier Brunno Guedes diz que o importante é não ter preconceito (Foto: Flavio Flarys / G1)Sommelier Brunno Guedes diz que o importante é
não ter preconceito (Foto: Flavio Flarys / G1)
Segundo o sommelier Brunno Guedes, proprietário da loja especializada em vinhos e espumantes Rótulos & Rolhas, o importante é não ter preconceito com experiências anteriores: "Às vezes, alguém prova um vinho argentino ou de uma determinada uva e não gosta, e aí surge um certo preconceito. Mas, não é por isso que necessariamente não vá gostar do estilo ou da localização. E tem a questão da rolha também. Muitos clientes têm preconceito com a screw cap (rosca), mas existem belíssimos vinhos com este tipo de lacre, principalmente brancos".
Ao comprar vinhos para consumir depois, é importante guardá-los de forma adequada. Se não tiver uma adega ou wine cooler, ele deverá ficar em local escuro com ausência de cheiros (inseticidas, por exemplo), boa umidade (70%) e pouca variação de temperatura, sendo ideal em torno dos 17ºC. Procure o lugar mais fresco de sua casa e é lá que você vai guardar os seus vinhos.
E não se esqueça: ninguém se torna um expert do dia para a noite. Portanto, aprimore-se com calma, aos poucos, e beba sempre com moderação. Após certo limite, é impossível analisar com fidelidade o que se está bebendo. Compartilhe conhecimento com algum amigo que goste de vinhos, troque experiências e, claro, não deixe de ler esta coluna, que sempre trará dicas do universo enogastronômico! Vários temas ainda serão abordados, como o decanter, adega, tanino, acidez, exame visual e olfativo, equilíbrio, tipos de rolha, harmonização, como guardar o vinho que sobrou do jantar, o trabalho do sommelier, dentre muitos outros.
Tem sugestões, dúvidas ou críticas? Mande para a coluna pelo VC no G1 ou pelo e-mail gastronomia@redeintertv.com.br ou.

domingo, 23 de março de 2014

Entrevista com o líder do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, ao jornal O Globo.

O BRASIL INTEIRO DEVERIA LER ESTA ENTREVISTA

Entrevista com o líder do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, ao jornal O Globo.

Estamos todos no inferno. Não há solução, pois não conhecemos nem o problema

O GLOBO: Você é do PCC?

- Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível… vocês nunca me olharam durante décadas… E antigamente era mole resolver o problema da miséria… O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias… A solução é que nunca vinha… Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a “beleza dos morros ao amanhecer”, essas coisas… Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo… Nós somos o início tardio de vossa consciência social… Viu? Sou culto… Leio Dante na prisão…

O GLOBO: – Mas… a solução seria…

- Solução? Não há mais solução, cara… A própria idéia de “solução” já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma “tirania esclarecida”, que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC…) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios…). E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.

O GLOBO: – Você não têm medo de morrer?

- Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar… mas eu posso mandar matar vocês lá fora…. Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba… Estamos no centro do Insolúvel, mesmo… Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração… A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala… Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em “seja marginal, seja herói”? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha… Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante… mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem.Vocês não ouvem as gravações feitas “com autorização da Justiça”? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.

O GLOBO: – O que mudou nas periferias?

- Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$40 milhões como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório… Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no “microondas”… ha, ha… Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.

O GLOBO: – Mas o que devemos fazer?

- Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas… O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, “Sobre a guerra”. Não há perspectiva de êxito… Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas… A gente já tem até foguete anti-tanques… Se bobear, vão rolar uns Stingers aí… Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas… Aliás, a gente acaba arranjando também “umazinha”, daquelas bombas sujas mesmo. Já pensou? Ipanema radioativa?

O GLOBO: – Mas… não haveria solução?

- Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a “normalidade”. Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco…na boa… na moral… Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês… não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: “Lasciate ogna speranza voi cheentrate!” Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Igreja oferece programa de ressocialização como alternativa a prostitutas detidas pela Polícia


Igreja oferece programa de ressocialização como alternativa a prostitutas detidas pela Polícia
No Arizona, a prostituição é crime. No entanto, uma iniciativa de evangelização tem oferecido oportunidade às profissionais do sexo de, ao serem detidas pela Polícia, optarem por serem levadas a uma igreja ao invés da cadeia.
O estado norte-americano adotou o Projeto ROSE, desenvolvido na cidade de Phoenix em 2011, e que já prestou assistência a mais de 350 pessoas.
Parte da estratégia da Polícia envolve a investigação, na internet, de locais de prostituição. A ação resulta na localização de dezenas de prostitutas, segundo informações do site RT. Ao serem detidas, são levadas para a Escola Estadual do Arizona de Serviço Social .
Depois de identificadas, as mulheres recebem cuidados de saúde, indicação de abrigo caso não tenham moradia e outros serviços de apoio. Se as mulheres concordam com o programa, não são presas. A iniciativa foi desenvolvida por Dominique Roe – Sepowitz, diretor do Escritório de Tráfico Sexual Intervention Research e professor de sociologia em Arizona.
As mulheres que já passaram pelo programa uma vez, ou que tenham pendências criminais, não podem participar novamente. “O Projeto ROSE é uma oportunidade de serviço para uma população envolvida em um problema muito complexo”, afirmou o tenente James Gallagher.
O autor do projeto, concorda com a visão do tenente: “Ter que tocar muitas partes do corpo, tendo que muitos fluidos corporais perto de você e fazer coisas que são estranhas e esquisitas realmente mexe com a sua ideia de que relacionamento se baseia em intimidade”.
O programa é subsidiado pelo governo através de verbas públicas que são destinadas à Bethany Bible Church, que recebe as mulheres detidas e presta assistência a elas. A opção do governo em investir no aconselhamento e tratamento foi apontada como correta por especialistas. Um estudo de 2013 feito pelo Instituto de Medicina e o Conselho Nacional de Pesquisa examinou o tráfico sexual e a exploração de menores, e recomendou em seu relatório “abordagens colaborativas”, pois essas seriam mais eficazes.
Por Tiago Chagas, para o Gospel
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segunda-feira, 10 de março de 2014

Como ser brasileiro em Portugal sem dar muito na vista

Como ser brasileiro em Portugal sem dar muito na vista

Sim, eu sei que não será culpa sua, mas, se você desembarcar em Portugal sem um bom domínio do idioma, poderá ver-se de repente em terríveis " águas de bacalhau ". Está vendo? Você já começou a não entender.
O fato é que como dizia Mark Twaia a respeito da Inglaterra e dos Estados Unidos, também Portugal e Brasil são dois países separados pela mesma língua. Se não acredita veja só esses exemplos,(...)
Um casal brasileiro, amigo meu, alugou um carro e seguia tranqüilamente pela estrada Lisboa-Porto, quando deu de cara com um aviso: Cuidado com as BERMAS". Eles ficaram assustados – que diabo seria berma? Alguns metros à frente, outro aviso: “Cuidado com as bermas". Não resistiram, pararam no primeiro posto de gasolina, perguntaram o que era uma berma e só respiraram tranqüilos quando souberam que BERMA era o ACOSTAMENTO.
Você poderá ter alguns probleminhas se entrar numa loja de roupas desconhecendo certas sutilezas da língua. Por exemplo, não adianta pedir para ver os TERNOS – peça para ver os FATOS, PALETÓ é casaco. Meias são PEUGAS, suéter é CAMISOLA – mas não se assuste, porque calcinhas femininas são CUECAS. ( Não é uma delícia).
Pelo mesmo motivo, as fraldas de crianças são chamadas CUEQUINHAS DE BEBÊ. Atenção também para os nomes de certas utilidades caseiras. Não adianta falar em esparadrapo – deve-se dizer PENSOS. Pasta de dentes é DENTÍFRICIO. Ventilador é VENTOINHA. E no caso (gravíssimo) de você tomar uma injeção na nádega, desculpe, mas eu não posso dizer porque é feio.
As maiores gafes de brasileiros em Lisboa acontecem (onde mais?) nos restaurantes, claro. Não adianta perguntar ao gerente do hotel onde se pode beliscar alguma coisa, porque ele achará que você está a fim de sair aplicando beliscões pela rua. Pergunte-lhe onde se pode PETISCAR. Os sanduíches são particularmente enganadores: um sanduíche de filé é chamado de PREGO; cachorros-quentes são simplesmente CACHORROS.
E não se esqueça: Um cafezinho é uma BICA; uma média é um GALÃO, e um chope é uma IMPERIAL. E, pelo amor de Deus, não vá se chocar quando você tentar furar uma fila e algum gritar lá de trás: "O gajo está a furar a BICHA!" Você não sabia, mas em Portugal chama-se fila de bicha. E não ria.
Ah, que maravilha o futebol em Portugal Um goleiro é um GUARDA-REDES. Só isso e mais nada. Os jogadores do Benfica usam CAMISOLA ENCARNADA – ou seja, camisa vermelha. Gol é GOLO. Bola é ESFÉRICO. Pênalti é PENÁLTI. Se um jogador se contunde em campo, o locutor diz que ele se ALEJOU, mesmo que se recupere com uma simples massagem. Gramado é RELVADO, muito mais poético, não é?(...)
Para entender as crianças em Portugal, pedagogia não basta. É preciso traçar também uma outra lingüística. Para começar, não se diz crianças, mas MIÚDOS. (Não confundir com miúdos de galinha, que são chamados de MIUDEZAS. Os miúdos de galinha portuguesa são os PINTOS). Quando um guri inferniza a vida do pai, este não o ameaça com a tradicional " dou-lhe uma coça!”, mas com "Dou-te uma TAREIA!", ou então com o violentíssimo “Eu chego a roupa à pele!"
Um sujeito preguiçoso é um MANDRIÃO. Um indivíduo truculento é um MATULÃO. Um tipo cabeludo é um GADELHUDO. Quando não se gosta de alguém, diz-se: "Não gamo aquele gajo". Quando alguém fala mal de você e você não liga, deve dizer: “Estou-me nas tintas", ou então: "Estou-me marimbando” (...) Um homem bonito, que as brasileiras chamariam de pão, é chamado pelas portuguesas de PESSEGÃO. E uma garota de fechar o comércio é, não sei por quê, um BORRACHINHO.
Mas o  pior equívoco em Portugal foi quando pifou a descarga da privada do  quarto de hotel e eles telefonaram para a portaria: "Podem me mandar um bombeiro para consertar a descarga da privada"? O homem não entendeu uma única palavra. Ele devia ter dito:
"Ó PÁ, MANDA UM CANALIZADOR PARA REPARAR O AUTOCLISMO DA RETRETE".
CASTRO, Ruy, Como ser brasileiro sem dar muito na vista. ” Viaje bem", revista de bordo da VASP, ano Vlll n.3/7

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Visto para os EUA

Nos últimos anos, a demanda de vistos de brasileiros para os Estados Unidos, quer a turismo, quer a negócios, disparou: foram 800.000 solicitações apenas em 2011. E não foi só a demanda que cresceu: entre 2001 e 2010, o volume de vistos concedidos para brasileiros aumentou mais de 144%, passando de 223.729 em 2001 para 546.866 em 2010. Dessa forma, os EUA se viram obrigados a reforçar o número de funcionários de seus consulados e acelerar os trâmites no país. O país também colhe benefícios: segundo o Departamento de Comércio dos EUA, os brasileiros gastam em média 5.000 dólares em cada viagem ao país. Os viajantes brasileiros estão entre as três nacionalidades que mais deixam dinheiro ao visitarem território americano, ao lado de chineses e indianos. Entenda a seguir quais são hoje os trâmites de concessão de visto para os EUA – e porque os brasileiros são tão bem-vindos ao país.
Segundo afirmou o presidente Barack Obama, esta é uma de injetar mais recursos na economia do país, que ainda se recupera da recessão. "A cada ano, dezenas de milhões de turistas de todo o mundo vêm visitar os Estados Unidos. E quanto mais visitantes vierem, mais americanos voltarão a trabalhar", afirmou. "Queremos mais gente vindo facilmente aos Estados Unidos".
Em janeiro deste ano, os EUA adotaram novas regras para simplificar e agilizar o processo de obtenção de vistos para turistas. Já em fevereiro, o Departamento de Estado americano afirmou ter reduzido 'drasticamente' os tempos de espera para a obtenção de visto em suas representações diplomáticas no Brasil. Quem solicita um visto americano no Rio de Janeiro ou em Brasília espera agora duas semanas ou menos para ser entrevistado, segundo o Departamento. Já em São Paulo, o prazo médio teria caído para menos de trinta dias. Mas recomenda-se que o brasileiro procure o consulado com pelo menos três meses de antecedência antes de viajar.

Formulário
O primeiro passo para obter o visto norte-americano é preencher o formulário DS-160, disponível no site https://ceac.state.gov/genniv/ (em inglês). É preciso ficar atento às informações prestadas, já que inconsistências nos dados podem por todo o processo a perder.
Pagamento
Para os vistos do tipo (B1/B2, C1/D, F, M, J, I, TN, TD) a taxa é de 160 dólares. Já os tipos (H, L, O, P, Q, R) custam 190 dólares. Os vistos tipo E-1, E-2 e E-3 têm taxa de 270 dólares e o visto de noivo ou noiva (tipo k), 240 dólares. O pagamento pode ser feito por meio de cartão de crédito pelo site do agendamento, por telefone, em dinheiro em qualquer agência do Citibank ou por boleto bancário. Não há cobrança separada para agendamento ou envio do passaporte.
Agendamento
De posse do número do código de barras do DS-160 e do recibo de pagamento da taxa, o agendamento da entrevista pode ser feito pelo site http://brazil.usvisa-info.com ou pelo telefone http://usvisa-info.com/pt-BR/selfservice/us_service_options. É preciso ter em mãos o número do passaporte. Primeiro, é preciso agendar a data de entrevista no consulado, em seguida a data para coleta de dados (foto e impressões digitais) no centro de atendimento (CASV), que é feita antes da entrevista.
Coleta de dados
Agendamento feito, é preciso ir a um dos Centros de Atendimento ao Solicitante de Visto (CASV) para coleta dos dados biométricos (impressões digitais e foto). O solicitante deve levar o passaporte e a página de confirmação do formulário DS-160. Pessoas acima dos 66 anos ou com até 15 anos estão isentas desse processo. Basta levar uma foto 5×7 e a página da confirmação do formulário DS-160 no centro de atendimento. Confira aqui os endereços dos CASV http://usvisa-info.com/pt-BR/selfservice/us_asc_information.
Entrevista
O último passo é a entrevista no consulado. Na ocasião, é preciso levar passaporte e a página de confirmação com o código de barras do formulário DS-160. Menores de 16 anos ou maiores de 65 anos são dispensados da entrevista, mas podem ser convocados se a embaixada ou consulado julgar necessário.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

SOLIDÃO!

A solidão amiga

A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão... O que mais você deseja é não estar em solidão...

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música... Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa... Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão... A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, "parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis". A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: "Como se comporta a Sua Solidão?" Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você." Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga... Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim: "Por muito tempo achei que a ausência é falta./ E lastimava, ignorante, a falta./ Hoje não a lastimo./ Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim./ E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,/ que rio e danço e invento exclamações alegres,/ porque a ausência, essa ausência assimilada,/ ninguém a rouba mais de mim.!"

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que "o inferno é o outro." Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia... Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:

"Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz - ela me fala com ternura e felicidade!

Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas.

Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.

Ali as palavras e os tempos/poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar."

E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, "certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa - garrafa, prato, facão - era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (...) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (...) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia."

Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: "As obras de arte são de uma solidão infinita." É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.

E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:

"...Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos... Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília..."

Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão...

A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos... Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.

Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.
Rubem Alves